Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

Ouro o rei dos metais

 

Aqui fica a minha apresentação na abertura da exposição "Marcas Poveiras" dedicada à ourivesaria.

 

“Ouro o rei dos metais”

 

Desde os tempos mais remotos, o ouro terá sido o primeiro dos metais conhecidos a ser usado pelo Homem.

As suas qualidades e a sua raridade são os principais motivos para a sua procura, a vontade de o possuir, de o ostentar, tornando-o símbolo de poder e alvo de cobiça.

Com um brilho muito característico, metálico que reflecte a luz, de cor amarela singular, não vulnerável aos ácidos, muito maleável, dúctil (capaz de ser reduzido a fios muito finos), muito denso, fazem dele um metal muito procurado.

Com um papel muito importante na sociedade, o Homem desde sempre lutou pela sua posse, traiu, vingou, matou mas também amou.

Foi escolhido para coroar os soberanos, para dourar os deuses e os santos e selar promessas de amor.

Desde o império romano até à actualidade muitos foram os imperadores, reis e soberanos que cunharam moedas em ouro.

Fizeram-no com a intenção de perpetuar o seu reinado para além da morte, ostentar poder e riqueza e ter uma moeda respeitada para as transações comerciais.

 

A descoberta das jazidas de ouro no Brasil permitiu a cunhagem das mais belas  e maiores moedas de ouro da monarquia portuguesa.

Chegaram até nós muitas das moedas cunhadas nos reinados de D. João V e D. José, muito apreciadas e procuradas por coleccionadores como os dobrões, meios dobrões, dobras, peças e meias peças e muitas mais.

 

O ouro está sempre presente nas épocas festivas, para celebrar nascimentos, aniversários, casamentos, festas religiosas, também foi conotado com propriedades mágicas, curas milagrosas e superstições populares.

Sempre foi um símbolo de riqueza e ostentação e servia para uma família mostrar o seu poder na sua comunidade.

Nas festas e romarias populares as mulheres usavam para demonstrar os seus dotes e fortuna familiar.

 

O Homem escolheu o ouro para criar diversos objetos de ornamentação de uso quotidiano, assim como de manifestação artística.

Raras são as mulheres que não usam brincos em ouro diariamente, símbolo também de adorno, estabilidade económica e feminilidade.

Com a vontade de possuir objetos em ouro, assim se formaram e armazenaram autênticos tesouros em muitas famílias.

Um hábito muito comum nas famílias tradicionais portuguesas consistia em investir em peças de ouro, tais como cordões, arrecadas, alianças, anéis e libras que em momentos de desespero financeiro, vendiam ou penhoravam parte desse ouro, recorrendo às ourivesarias ou aos prestamistas.

 

Actualmente, um pouco por todo o país abrem pequenas lojas e escritórios de supostamente comerciantes oportunistas e sem escrúpulos que tentam chamar até si todos aqueles que estão em dificuldades financeiras, prometendo a compra dos objetos de ouro a preços elevados.

Tem surgido por todo lado muitas empresas de compra de objetos de ouro, apareceram como cogumelos em dia de humidade e normalmente são dirigidas por pessoas mal preparadas e sem qualquer habilitação técnica para efectuarem uma avaliação com responsabilidade e rigor exigido.

Negócio de oportunidade, com base na ignorância de quem vende e que assenta em critérios muito pouco objectivos e validados por aparelhos de precisão nada rigorosos.

Devido a uma onda crescente de insegurança e associado à cotação do ouro batendo máximos históricos, muitas famílias portuguesas em situação difícil aproveitam estes momentos para vender os seus objetos de ouro e jóias.

Estas empresas compram tudo que lhes aparece pela frente, pagando aos clientes (vítimas) o preço definido por uma tabela que está muito aquém do verdadeiro valor das peças.

Compram moedas a peso, sem valorizar o seu estado de conservação, raridade ou valor numismático, compram peças de joalharia sem atribuir qualquer valor às pedras preciosas que nelas estão incrustadas, compram objetos manufacturados no séc. XVII ao mesmo preço que uma jóia fabricada de uma forma industrial no século XX, compram tudo sem qualquer rigor ou cuidado na valorização das peças, sendo o seu destino a fundição.

 

Diariamente são fundidos em fornos industriais grandes quantidades de objetos de ourivesaria, desde simples alianças, malhas vulgares e até jóias de rara beleza com manufacturarão delicada e precisa.

Em poucos minutos aquilo que demorou muitas horas a criar, a fabricar e se manteve nas famílias de geração em geração, é destruído pelo calor.

Peças de valor histórico e arqueológico, dignas de colecção, testemunhos de épocas ricas da ourivesaria portuguesa, trabalhos de importantes artesãos e industriais, moedas, símbolos do nosso passado, muitos testemunhos de histórias de famílias e reinados têm o mesmo infeliz destino.

Não estarão estas empresas a atentar contra o património da ourivesaria portuguesa?

Que testemunhos ficarão para o futuro dos belos e delicados trabalhos de filigrana do século XIX de Póvoa de Lanhoso ou Gondomar?

Quase nada, somente o que resta em algumas colecções particulares muitos bem guardados nas caixas fortes ou em alguns poucos museus.

Uma situação semelhante a esta, passou-se no início do século XIX, quando as tropas napoleónicas entraram em terras portuguesas, saquearam e destruíram muito do nosso património, na altura também fundiram as pratas civis e religiosas das igrejas, derreteram moedas de ouro e prata, com o fim de financiar a invasão ao território  português.

São muito poucos os objetos de ourivesaria desse período que chegaram até aos tempos atuais.

Esse é um dos motivos pelo qual estas peças são ou deveriam ser valorizadas, pela sua raridade.

Considero esta destruição maciça de objetos de ourivesaria um atentado ao nosso património, é como se destruíssemos os quadros da ilustre pintora Vieira da Silva aproveitando as molduras para fazer lenha, ou as esculturas do mestre Cutileiro usando o seu granito ou a mármore para fazer soleiras das portas.

 

Estes grandes e pequenos tesouros familiares depois de fundidos e convertidos em euros serviram para liquidar dívidas, pagar propinas e livros escolares dos filhos, contribuir para o pagamento das prestações do carro e da casa, pagar contas da luz e água e também alguns gastos supérfluos.

Milhares de quilogramas de ouro foram vendidos e derretidos nestes últimos anos que foram convertidos em milhões de euros novamente introduzidos na economia nacional, e porque não dizer, mundial.

 

Muitas toneladas de ouro foram exportadas em forma de barra sem qualquer valor acrescentado pelos ourives nacionais enriquecendo somente os intermediários envolvidos no negócio.

Um prejuízo para o país pois ficamos sem o ouro, sem qualquer beneficio para o sector de ourivesaria e receitas fiscais.

 

Porém, atento a este novo fenómeno, não posso de deixar de partilhar aqui a minha experiência no ramo assim como deixar alguns conselhos a todos aqueles que porventura pretendem vender o seu aforro em ouro.

 

Se pretende vender o seu ouro, deve procurar várias opiniões, começando pela ourivesaria onde habitualmente são clientes.

A avaliação deve ser feita na vossa presença, e a pesagem deve ser efectuada em balança própria e certificada pela Direcção Geral de Economia.

 

Depois, e se for caso disso, devem consultar um perito (Avaliador Oficial da Casa da Moeda) ou ainda um perito em arte e antiguidades no caso de se tratar de uma peça que julguem ter alguma valor histórico.

 

Entre as várias opiniões e ofertas deveram escolher a que for mais favorável e que porventura pode ser aquela que pagar mais pelos seus objetos.

 

No caso de concretizar a venda, solicitem sempre uma cópia do documento de venda onde deverá constar a descrição dos bens que foram vendidos, assim como o seu peso e valor atribuído, a respectiva identificação da empresa a quem vendeu assim como o respectiva quitação do pagamento.

 

Se pretendem uma melhor oferta e se os objetos em causa têm algum interesse adicional pela sua antiguidade, raridade, interesse histórico, ou outro, poderão recorrer a empresas leiloeiras e esperar que num mercado mais abrangente as ofertas possam ser mais e melhores.

Este tipo de empresas cobra comissões pelo serviço de colocação em leilão e essas taxas deverão ficar acordadas e contratualizadas antes do leilão para evitar algumas surpresas.

Por último, não posso deixar de alertar para muitas das publicidades enganosas com ofertas de preços de compra por grama de ouro muito acima do valor dos mercados mundiais e que estas propostas só têm um objectivo…

Cuidado: Quando a esmola é grande, o Santo desconfia!

 

A entrada no século XXI marcou um período de ouro para... o ouro.

O ano 2000 terminou com o registo de uma desvalorização de 5,47%, mas desde então, o ouro só conhece o caminho da subida.

 

Na última sessão de 2000 a cotação ficou em 273 dólares a onça, tendo atingido no final de 2010 os 1.390 dólares ou seja, numa década, o preço do ouro nos mercados mundiais quintuplicou.

 

A maior valorização anual foi registada em 2007 quando o ouro subiu 31% e em 2010 terminou pelo segundo ano consecutivo com uma valorização anual na casa dos 20%, num ano de fortes subidas nas cotações de muitas matérias-primas e atingiu o valor recorde de 1.900 dólares por onça em Agosto de 2011.


São muitos os factores que actualmente estimulam a subida do seu valor.

 

A Europa continua por resolver os seus problemas com as dívidas soberanas o que cria enorme instabilidade nos mercados, levando os investidores a procurar outras investimentos mais estáveis.

 

Com as taxas de juro em mínimos históricos e segundo o World Gold Council os bancos centrais de todo o mundo estão a reforçar as suas reservas de ouro como há muito não o faziam e também a procura de ouro pela China e pela Índia tem sido cada vez maior levando a uma procura extraordinária deste metal precioso.

 

Haverá certamente muitas mais causas que explicam estas fortes subidas do valor do ouro mas estas tem sido certamente as mais determinantes.

 

As reservas de ouro do Banco de Portugal são cerca de 382,5 toneladas (em 1974 tínhamos 865 toneladas) são actualmente as décimas quartas maiores do mundo. Valiam no final de dezembro ultimo, 15.509 milhões de euros, mais 545 milhões de euros do que no final de 2011.

 

Contudo, se o ouro pudesse ser usado directamente no financiamento do Estado Português, teria um impacto relativamente reduzido.  As reservas de ouro valem pouco mais de um quinto do programa de assistência financeira acordado com a ‘troika’ e pouco mais do que o Governo tenciona gastar este ano em despesas com pessoal da administração pública.

 

No inicio do mês assistimos à queda da cotação, isto ficou a dever-se à notícia de que o Chipre poderia vender parte das suas reservas para financiar o resgate e também algumas instituições financeiras terão recomendado aos seus clientes a venda da matéria-prima.

Desde o início do ano o ouro já teve mais de 16% de desvalorização acumulada, sendo que no espaço de duas sessões recuou mais de 100 dólares por onça.

 

O ouro esteve a ganhar terreno durante 12 anos consecutivos, estando este ano a quebrar o recorde conseguido à conta do estatuto de valor refúgio que lhe tem sido associado quando os investidores procuram alternativas ao mercado accionista, obrigacionista e cambial.

 

Olhando para o futuro é provável que o ouro continue a valorizar, na medida em que os investidores continuam receosos e a mostrar pouca confiança numa recuperação económica, motivos que os deverão fazer continuar a apostar em ativos alternativos, sendo o ouro o preferido.

 

Quando actualmente e devido a instabilidade económica que se vive no mundo muitas vezes nos questionamos sobre o futuro do Euro ou a sustentabilidade do Dólar só podemos ter uma certeza: nos próximos meses, anos ou décadas o ouro é e continuará a será o rei dos metais.

 

Fontes :

World Gold Council

Banco de Portugal

Lusa

publicado por Carlos Tavares às 16:40
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